A pesar da força dos temas que abarca a fotografia de Nan Goldin, sua obra demonstra uma fragilidade incontestável. Os corpos magoados, devastado pela violência doméstica, a AIDS e as drogas, ameaçam sumir tão fugazmente como os instantes capturados por sua lente, instantes que fragmentam-se sem cessar frente a nosso olhos. Os matizes quase sobre-saturados, a solidez das sombras e o conteúdo chocante são só tentativas de resguardar tempos e carnes em via de desaparição— melancolia não pelo já perdido, senão pelo que se está perdendo. Continuamente.
Frente a essa fragilidade, o espectador não pode deixar de experimentar uma forte carga ética, uma necessidade de reconhecer quão precárias são as vidas alheias, de prantear suas prováveis mortes, e finalmente de identificar nossa própria existência com aquela fugacidade. É essa responsabilidade tão pesada e contundente o que incomoda na obra da fotógrafa americana e não a representação de “temática adulta.” E é precisamente essa responsabilidade ética a que a Oi Futuro violou de forma tão insensível e insensata ao cancelar sua mostra no Rio, apenas um mês antes da abertura. O escândalo da decisão da Oi Futuro encontra-se em descartar sem o mais mínimo reparo vidas e experiências que foram, tem sido e continuarão sendo consideradas descartáveis: lixo humano, seres imundos, escória. Daí o furor que tem gerado o caso entre artistas, intelectuais e cidadãos tanto aqui como no exterior.
O outro motivo pelo qual a obra da Nan Goldin incomoda é porque nos mostra os limites aos quais podem-nos levar o prazer e o desejo. Os corpos nas suas fotografias encontram-se assediados por golpes, doenças ou dependências tão-só pelo fato de terem se atrevido a desejar: por querer e ter querido. Numa sociedade na qual freqüentemente somos reduzidos a meros consumidores, essa representação tão franca de sujeitos que transbordam a economia burguesa dos bens resulta revolucionária. Temos aqui pessoas cujos desejos não se limitam a produtos e serviços; temos aqui pessoas cuja procura pelo prazer os leva irreversivelmente fora do âmbito do mercado, da mesura, da decência. Desejos e prazeres dos quais empresas como a Oi não derivam nenhum beneficio. Desejos e prazeres assoladores. Necessários.
Várias vozes tem comentado esse caso como um claro exemplo do motivo pelo qual os espaços artísticos precisam ficar nas mãos do setor público e não do privado. Por outro lado, lembremos que quando a responsabilidade de salvaguardar as expressões e meios artísticos tem recaído sobre o estado, ele também a tem violentado alarmante e atrozmente. Quando Goldin começou a série de retratos que compõem sua Ballad of Sexual Dependency em 1979, o Ato Institucional nº 5 ainda se mantinha em pleno vigor aqui no Brasil, outorgando ao governo o poder de censurar qualquer expressão que achasse nociva a sua visão da moral pública. Menos duma década depois, Goldin (junto com contemporâneos como Robert Mapplethorpe e David Wojnarowicz) virou alvo de deputados e senadores que queriam ditar quais projetos mereciam fundos governamentais. No final das contas, quem precisa se encarregar da liberdade estética somos nós. Se desejamos uma arte que valha a pena, precisamos passar de ser consumidores passivos a cidadãos ativos. É nosso dever recusar inequivocamente as higienes que são impostas em nosso nome, recusar as lentes esterilizadas e as salas de exibição hermetizadas baixo os auspícios da moral pública. Nossa moral.
Numa das fotografias mais comovedoras de Goldin, um braço assoma-se por entre lençóis desinfetados, procurando quem o tome pela mão e compartilhe —mesmo que for por tão-só um instante!— aquela dor que o destrói. Na imagem seguinte da série, Gotscho beija a testa de seu parceiro Gilles, recém morto: um luto que temos o privilegio e a obrigação de acompanhar. A mensagem da obra de Goldin é simples. Acolhamos mãos moribundas nas nossas. Beijemos cadáveres ternamente. Contaminemos-nos de vidas alheias.
Nan Goldin. Gilles arm, 1993.
Nan Goldin. Gotscho kissing Gilles (deceased), 1993.

Comments
Bom artigo
Muito bom artigo, pareceu-me muito interessante.
Obrigado
Nan Goldin
Os meus sinceros parabéns pela opinião e atrevo-me a dizer por esta homenagem a tão grande figura da fotografia que foi Nan Goldin. Vale sempre a pena ler tais sentimentos acerca de grnades figuras da nossa humanidade.